Beast of No Nation: Um Retrato da Guerra

Beasts of No Nation lançado em 2015 é o novo filme do cineasta Cary Joji Fukunaga que também assina o roteiro, a direção artística e a fotografia numa nova super produção financiada pela Netflix que detém todos os direitos da obra fazendo parte apenas da programação do seu serviço de streaming, que está revolucionando o cenário audiovisual mundial.

O filme é um retrato das nações africanas mergulhadas na guerra civil pelo ponto de vista de uma criança, depois de sua família ser assassinada pelos militares do governo ele se junta a um grupo de mercenários se transformando numa arma de guerra. Vemos aqui um relato cruel de como a guerra pode transformar vidas, como que atrocidades podem acabar até com a inocência pueril de uma criança.  O filme é forte, não poupa argumentos visuais para dar vida as barbaridades mas também possui uma fotografia belíssima que faz um forte contraste com toda violência e crueldade proporcionada pela guerra.

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O cineasta Cary Joji Fukunaga está aos poucos se consolidando entre os melhores diretores desta nova geração, apesar de sua cinematografia não ter ainda a visibilidade que merece. Sua obra mais conhecida é a direção de toda primeira temporada de True Detective, a série da HBO. Neste filme a sua precisão cinematográfica é extraordinária criando cenas metodicamente impressionantes, não se limitando a conceitos técnicos mas transcendendo empiricamente o uso da câmera como uma extensão de sentimentos, como em todos seus filmes, Beasts of No Nation é feito com a alma. Isso é passado para os atores, o ator mirim Abraham Attah que interpreta Agu é um exemplo disso, a sensibilidade que o ator consegue expressar sentimentos de perda, ódio e alienação é magnífica, até em cenas mais tensas em que a personalidade infantil já foi totalmente amputada de seu cerne, ele ainda consegue transmitir com um olhar que a sua inocência ainda está lá, oprimida pelos demônios da guerra.

Uma das grandes interpretações do filme também é a do ator Idris Elba que faz o chefe dos mercenários e comanda uma tropa de guerrilheiros formados em sua maioria por crianças que perderam suas famílias pela crueldade da ditadura militar e dos vários grupos de mercenários que funcionam como organizações paramilitares. Um vilão que é o produto da guerra, o antagonista da miséria e o pai advindo de tragédias. O escárnio que sentimos por sua figura perversa às vezes é trocado por pena, isso é um mérito do ator que conseguiu construir uma forte personalidade para esse indivíduo tão ambíguo e cruel.

Enfim, num mundo de guerras silenciosas em que muitos são vítimas, um filme como Beast of No Nation que não fala sobre guerra mas faz uma crítica a ela, clamando pela paz, é importantíssimo para nos fazer rever nossos conceitos como seres humanos. Somos destituídos de caridade pela dor do próximo porque nos entorpecemos pela comodidade da vida cotidiana e pelos atributos de competição que temos que assumir perante a nossa sociedade de consumo. Nações ainda são acometidas pela guerra e povos inteiros ainda sofrem com sua destruição, caiba a nós assistir a um filme assim e de alguma forma tentar ajudar, como por exemplo abrindo nossas fronteiras para os povos de que lá fogem da morte certa ou mandando auxílios de suprimentos, qualquer outra forma crível que seja, o que não podemos fazer é nos acomodar apenas em orações pela paz ou em ideologias xenofóbicas propagadas por idiotas.
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About leandro godoy

Sou o criador, editor chefe e escritor do site Cinema e Fúria. Gosto dos mais malucos exploitations, aos cultuados filmes de arte até ao mainstream do cinemão pipoca. Meus outros interesses são: odontologia, literatura e música.
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