A CAÇA: O PODER DA INTOLERÂNCIA



O filme do dinamarquês Thomas Vinterberg lançado em 2012 é uma genial personificação dos temores de uma sociedade numa época onde a cultura do medo domina todas as convicções, uma indignação coletiva que se torna imensurável quando a figura da pureza e inocência de uma criança pode estar ameaçada ou pode ter sido corrompida e violada por algum adulto, como os fatos podem se transformar em verdades quando o receio é posto como algo real e a fúria transpõe o delírio levando a baixo quaisquer chances de um julgamento justo para àquele que está sendo acusado de algum crime hediondo, como a pedofilia. Este filme nos mostra que a mentira pode ser dita e usada por qualquer um.

Vivemos hoje reféns de ilusões macabras, com medo de guerras entre nações, ataques de maníacos, crimes bárbaros contra nossos filhos e filhas, apocalipse econômico, assassinatos, assaltos, sequestros e por aí vai. Digo ilusão, porque, por mais que sejamos cuidadosos e nos fechamos a sete chaves numa bolha de receio e medo, comprando descontroladamente tudo aquilo que não precisamos para nos sentir vivos, o mundo não nos esquece, e devaneios e infortúnios estão à espreita assim como tudo àquilo que podem nos fazer felizes e nos dar uma razão maior de vida e existência,  o medo não pode ser considerado algo que molde nossas convicções refletindo em nossas vidas, mas sim um sentimento de alerta e nunca de autoridade que também nos priva de nosso bom senso.

Este filme não tem medo de nos mostrar a verdadeira face da ignorância humana quando ela é colocada  à prova, ele não quer nos chocar mostrando um crime hediondo ou condicionar ainda mais nossa convicção sobre a pedofilia, mas tem a pretensão de nos alertar sobre os nossos julgamentos que podem moldar e definir o que é real e ilusão, algo que pode facilmente destruir a vida de um inocente que apenas deseja viver em paz.


O filme nos alerta sobre o poder da mentira, até onde ela pode ser considerada algo perigoso e hostil para àquele que está sendo o seu alvo, a mentira tem um poder muito grande nesta cultura de medo que estamos inseridos, ainda mais quando ela é dita por uma criança que aparentemente está denunciando um abuso sexual que sofreu. As crianças são a válvula de escape de nossos medos e frustrações, elas são o ponto frágil de nossos temores por causa da sua inocência e pureza, temos um medo terrível de que maníacos que vemos diariamente nos noticiários da TV podem fazer contra suas integridades, por isso sentimos a obrigação incondicional de protege-las e resguarda-las.

A sociedade da pequena cidade em que o professor de uma creche local Lucas (Mads Mikkelsen) reside, o tem como uma pessoa pacata, amiga, confiável e simplória e confiam plenamente seus filhos à seus cuidados, tudo ia bem até Klara (Annika Wedderkopp)  influenciada pelo o meio em que vive, inocentemente, inventa uma mentira de que Lucas a molestou, isto desencadeia a fúria dos moradores da cidade que começam a acusa-lo de pedofilia e querem a todo custo justiça por uma crime que ele não cometeu, então, impotentes, nós vemos a derrocada brutal de um inocente. Isto é transposto como algo bem cru e real, nos faz pensar que qualquer um pode ser alvo fácil da insanidade coletiva desencadeada por uma mentira e que devemos investigar melhor uma acusação tão séria antes de fazermos qualquer tipo de julgamento.

A maioria dos filmes do pequeno mas significante e influente currículo de Thomas Vinterberg, brincam com o poder da mentira e de dogmas, deste o seu segundo filme e sua grande obra-prima Festa de Família. O dinamarquês quase sempre cria uma atmosfera depressiva nos seus filmes como uma metáfora da verdadeira natureza humana, mas também eles de certa forma são otimistas, porque as ficções que ele cria são poderosas sinais de alerta sociais, e quase sempre seus filmes super realistas possuem personagens com caráter íntegros que infelizmente são vítimas da intolerância e brutalidade desta natureza humana, e é isto que torna suas obras tensas e depressivas, elas conseguem despertar nossos sentimentos de angústias trazidos pela piedade e compaixão por algo que é bom e correto.



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About leandro godoy

Sou o criador, editor chefe e escritor do site Cinema e Fúria. Gosto dos mais malucos exploitations, aos cultuados filmes de arte até ao mainstream do cinemão pipoca. Meus outros interesses são: odontologia, literatura e música.
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