FILMES DE HORROR/TERROR DA DÉCADA DE 1980: A ERA DA MAIOR REVOLUÇÃO DO GÊNERO





Caro leitor, apertem os cintos e preparem-se para uma viagem nostálgica através do tempo e espaço indo diretamente para a época da maior revolução que o cinema de horror já presenciou na história da sétima arte, a incrível década de 1980! Se a década de 1970 foi a era das obras primas, a de 1980 foi a da metamorfose. Nesta era, o cinema de horror sofreu várias modificações conceituais e de efeitos especiais (maquiagem e criação sem o auxílio de computação gráfica) por uma nova leva de cineastas criativos e inventivos que sofreram influencias mais obscuras do que ditava o normal, pelos filmes de Ed Wood, Roger Corman, Larry Cohen, David E. Durston, José Mojica Marins (o nosso Zé do Caixão), George Romero, William Friedkin, Mario Bava, Paul Morrissey, Dario Argento, Lucio Fulci entre outros.

Jovens cineastas norte-americanos da década de 1980, criaram uma nova roupagem para o gênero se utilizando de roteiros muito bem construídos, muita pouca grana e revolucionários efeitos de garagem que foram evoluindo ao longo da década, o primeiro marco desta era foi o filme A Morte do Demônio (Evil Dead)de 1981 de Sam Raimi que redefiniu os padrões do gênero, o seu filme foi feito com uma quantidade irrisória de dinheiro e os atores assim como o maquiador que deu vida aos demônios bizarros e toda carnificina do filme, eram amigos do diretor e não cobraram nada para participar da produção. Sam Raimi filmou todo o filme apenas com uma câmera na mão e o resultado não poderia ser mais original, ele reformulou a técnica ''Shaky Cam'' o estilo de câmera tremida dando ao filme um ar documental, a “Chase Cam” onde a câmera faz um papel de antagonista contracenado com os protagonistas perseguindo-os, e a “Lurk Cam” onde a câmera fica a espreita atrás de arvores, janelas e cantos escuros.

A Morte do Demônio (Evil Dead) de 1981 foi um filme independente que teve como força motriz a paixão pela sétima arte e a vontade do idealizador em conceber uma obra com sua personalidade, assim, tendo apenas uma câmera na mão, Sam Raimi revolucionou todo um gênero. Este filme tirou da obscuridade os filmes considerados Trash ou horror B, os elevando à outro nível hierárquico. Em 1987 Sam Raimi resolveu refazer a estória de outrora com o filme Evil Dead 2, só que agora com efeitos e tecnologia que só um bom orçamento consegue conceber, se o filme antes era semi amador agora ele se colocava no nível profissional, com o talentoso maquiador de filmes de horror Gregory Nicotero e novamente Bruce Campbell fazendo o personagem Ash, que viria a se tornar bastante popular e multiplicaria o patrimônio de Sam Raimi com vendas de HQ's, bonecos e tudo mais que os fãs de horror (inclusive este que vos fala) adora comprar e colecionar.

EVIL DEAD (1981)

O canadense David Cronenberg, um dos diretores mais inventivos, excêntricos e originais desta geração revitalizou o subgênero ou estilo de horror definido como ''body horror'', um estilo de filme onde a degradação, mutação e degeneração do corpo humano até a sua completa destruição é uma metáfora das consequências da ambição humana por poder e conhecimento supremos, são filmes visualmente grotescos e bizarros que na maioria das vezes possui conotações científicas de cunho biológicos e tecnológicos que remetem principalmente a cultura cyberpunk. Suas principais obras neste período foram: Scanners de 1981, Videodrome de 1983 e A Mosca (The Fly) de 1986.

Nesta mesma década Wes Craven criou um dos personagens mais icônicos do gênero Slasher Movie (filmes de horror onde seriais killers perseguem adolescentes), no filme A Hora do Pesadelo de 1984, o maníaco homicida que perturbava os pesadelos dos adolescentes com seu humor sádico, irônico e muita violência. Freddy Krueger interpretado por Robert Englund, foi um dos personagens mais originais já criados do gênero, ele entra e manipula os sonhos de suas vítimas tendo o poder de mata-las durante o sono, manipulando este mundo onírico ao seu bel prazer e sadismo. Outro personagem marcante do gênero, que era o pesadelo dos adolescentes criado nesta mesma década, mas especificamente em 1980, foi Jason Voorhees na série Sexta Feira 13. Outro personagem icônico e cultuado deste período foi o sádico Pinhead ou cabeça de prego, um personagem criado pelo britânico Clive Baker originalmente no seu livro The Hellbound Heart, e o próprio autor do livro dirigiu e roteirizou o filme Hellraiser - Renascido do Inferno de 1987, um filme que explora de forma fantasiosa o sadomasoquismo, onde criaturas do inferno conhecidas como cenobitas, incorporam no mundo terreno afim de torturar e matar de forma ultra violenta, criativa e cruel os seres humanos que premeditadamente ou não, os invocam em busca do prazer supremo através da dor.

Não foram só os norte-americanos que revolucionaram o gênero, mas os italianos também tiveram uma grande parcela de responsabilidade reinventando os filmes de horror psicológicos, filmes sobre zumbis e os slashers movies, diretores como Lucio Fulci com seus filmes de horror gore, fantasiosos, lisérgicos e totalmente experimentais criava uma nova percepção entre a relação dos filmes de horror com o sobrenatural e com assassinos seriais nos filmes As Sete Portas do Inferno (...E Tu Vivrai Nel Terrore! L'aldilà) de 1981, A Casa do Cemitério (Quella Villa Accanto al Cimitero) de 1981 e O Estripador de Nova York (Lo Squartatore di New York) de 1982. Lamberto Bava modificava e reformulava os Slashers movies os deixando mais violentos, divertidos e caricatos com a trilogia Demons.

CANNIBAL HOLOCAUST (1980)

Dario Argento, considerado o Alfred Hitchcock italiano, dava aos filmes de horror toda a sua genialidade como contador de histórias, seus filmes são suspenses psicológicos mais filosóficos com uma boa pitada de humor negro, eles são visualmente deslumbrantes, estilosos e com cenas de horror gore, a percepção fílmica e metafórica de Dario Argento mudou todo o conceito de cinema de horror, os seus principais filmes remetem a década de 1970 sendo que ele concebeu também alguns extraordinários filmes na década de 1980 como Mansão do Inferno (Inferno) de 1980, Tenebre (Tenebrae) de 1982, Phenomena de 1985 e Terror na Ópera de 1987. Dario Argento e Lucio Fulci tiveram o marco de suas carreiras na década de 1970 e seus filmes lançados neste período serviram de inspiração para vários realizadores da década de 1980. Ruggero Deodato com seus filmes de horror que faziam severas críticas sociais, políticas e culturais horrorizou muitas pessoas nesta época e seus filmes entraram para os anais da sétima arte como os filmes de horror mais polêmicos da história, suas principais obras deste período foram: Cannibal Holocaust de 1980, Cut and Run (Inferno in Diretta) de 1985 e The House on the Edge of the Park (La casa sperduta nel parco) de 1980.

Neste período também teve a reformulação dos filmes de horror psicológicos que fugia dos padrões fantasiosos, eles remetiam distúrbios psiquiátricos como psicopatia e sadismo de maneira mais realista e brutal, eles tinham a pretensão de trazer sentimentos angustiantes naqueles que os assistiam, por serem filmes bastante polêmicos para época eles foram renegados e poucos filmes foram produzidos neste formato. Cineastas como o estadunidense John McNaughtone (Henry, 1986) e o austríaco Gerald Kargl (Angst, 1983) podem ser considerados dois dos principais cineastas representantes deste estilo nesta década.

Alguns filmes em específico também revolucionaram o gênero, como o filme estadunidense de horror sobrenatural Poltergeist de 1982 dirigido por Tob Hooper, um filme de horror muito divertido que brinca com a ideia de uma casa mal assombrada por espíritos maléficos e portais para outras dimensões. Filmes mais sérios e intimistas que criticavam a religião e valores familiares como a obra francesa Possessão de 1981, dirigido pelo genial Andrzej Zulawski, também marcou este período.

O filme Um Lobisomem Americano em Londres de 1981, dirigido por John Landis, trouxe para esta década o lendário e místico lobisomem mantendo as suas características clássicas, este filme possui a metamorfose de ser humano para a criatura de lobisomem mais impressionantes e aterrorizantes da história do cinema. Outra criatura cultuada do submundo explorada por este período foram os vampiros, com os filmes Fome de Viver de 1983 dirigido por Tony Scoot, Quando Chega a Escuridão de 1987 dirigido por Kathryn Bigelow e o terror adolescente A Hora do Espanto de 1985 dirigido por Tom Holland, todos estes filmes também respeitaram as características clássicas do monstro sedento de sangue.

O ENIGMA DO OUTRO MUNDO (1982)

O filme de John Carpenter O Enigma de Outro Mundo de 1982 deu uma nova roupagem para os filmes sobre invasões alienígenas, em uma obra-prima que mistura body horror, suspense psicológico, ação e ficção científica. Outra joia rara desta década dirigida por John Carpenter é um outro filme sobre invasões alienígenas, Eles Vivem de 1988, o filme fala sobre alienígenas capitalistas disfarçados de seres humanos que exploram o planeta Terra afim de acabar com todos os seus recursos, manipulando os terráqueos com mensagens subliminares afim de faze-los seus escravos, um filme que faz uma crítica ácida ao capitalismo selvagem. Falando sobre filmes de invasões alienígenas como não citar Força Sinistra de 1985 dirigido por Tob Hooper, um filme que fala sobre alienígenas hostis no cometa halley que querem destruir a humanidade, um filme que se aproveitou da fama do cometa halley que foi um fenômeno astrológico e cultural desta época.

Outra obra-prima deste período é o filme Aliens: O Resgate de 1986 que manteve apenas uma parcela do horror e do suspense do primeiro filme porque esta continuação foca mais na aventura, ficção científica e na ação muito bem dirigida por James Cameron, o Spielberg do submundo! Outro filme sobre alienígenas que mistura ação e horror - muito mais ação do que horror - é o filme O Predador de 1987 dirigido por John McTiernan, alguns não consideram Aliens: O Resgate e O Predador como filmes de horror, mas isso fica à critério de cada um que os assistem.

Os filmes de Zumbis também tiveram suas obras-primas neste período, como o genial filme de George Romero Dia dos Mortos de 1985 que completa a sua trilogia dos mortos-vivos começada em 1968 com A Noite dos Mortos Vivos. O filme A Volta dos Mortos Vivos também de 1985 dirigido por Dan O' Bannon, é uma divertida comédia de humor negro que tem os mortos-vivos como personagens principais, como assistir a este filme e não se divertir com a expressão BRAINS! A adaptação para o cinema do livro homônimo de Stephen King Cemitério Maldito de 1989 dirigido por Mary Lambert, um filme onde os mortos vivos eram menos caricatos e não menos aterrorizantes, este filme remetia a dor da perda pela morte que fazia com que as pessoas ressuscitassem seus entes queridos através de magia negra os transformando em mortos-vivos homicidas. O norte-americano Stuart Gordon adaptou um conto homônimo de H.P. Lovecraft e concebeu uma obra-prima, um filme sobre mortos vivos totalmente diferente de tudo que já havia sido feito, um dos melhores do gênero, Re-Animator de 1985.

DAY OF THE DEAD (1985)

A série de filmes Guinea Pig foi além, alguns estudantes de cinema do Japão resolveram fazer um vídeo de uma mulher sendo estrupada e esquartejada viva, lógico que tudo era mentira, um curta metragem feito com efeitos de garagem toscos mas muito convincentes, diz a lenda que o ator Charlie Sheen ao assistir a este vídeo na internet o denunciou para a polícia, pois ele achou que este curta metragem mostrava um assassinato real. Outra obra-prima do gênero foi Tetsuo - O Homem de Ferro de 1989 dirigido pelo japonês Shin'ya Tsukamoto, ele pegou o conceito de body horror de David Cronenberg e o levou para a cultura cyberpunk nipônica.

O britânico Ken Russell também concebeu, o que para mim, é uma obra-prima do horror e ficção científica que fala sobre estágios de consciência que nos leva aos instintos mais primais através da memória guardada em nossos genes da era em que eramos apenas primatas, com o filme Viagens Alucinantes de 1980. Com Gothic de 1986 Ken Russell conta uma estória fantasiosa e onírica de como Mary Shelley's teve a epifania regrada a muito láudano de escrever o livro de horror gótico, e uma das grandes obras-primas da literatura mundial, Frankenstein.

Outro marco desta década foi o filme O Iluminado de 1980 dirigido por Stanley Kubrick, também uma adaptação do livro homônimo do Stephen King. O filme é uma obra-prima do medo! Ele nos transporta para dentro da estória como se estivéssemos sentido a claustrofobia dos personagens confinados num hotel assombrado por espíritos durante uma nevasca, é como se o filme nos obrigasse a entender a loucura que aos poucos acomete a persona do personagem principal, brilhantemente interpretado por Jack Nicholson. Este filme é uma obra-prima do horror e do cinema mundial como um todo.

Com certeza esqueci de mencionar vários outros filmes, mas falar dos milhares de filmes que foram feitos neste formato na década de 1980 é um tarefa quase impossível. Todos estes filmes que citei neste artigo foram muito importantes para o gênero, eles moldaram novos paradigmas e convicções que foram muito mal usadas pela maioria dos filmes que vieram após, principalmente na década de 1990 e 2000, tendo raras exceções. A meta da industria em hollywood é refilmar os filmes desta década afim de se aproveitar da fama de seus nomes e também para camuflar a crise criativa dos roteiristas de cinema nos EUA, já que os grandes profissionais desta área, estão buscando as séries e mini-séries de TV para expor seus talentos e contar suas estórias.



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About leandro godoy

Sou o criador, editor chefe e escritor do site Cinema e Fúria. Gosto dos mais malucos exploitations, aos cultuados filmes de arte até ao mainstream do cinemão pipoca. Meus outros interesses são: odontologia, literatura e música.
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