FEBRE DO RATO: UM FILME NACIONAL OBRIGATÓRIO PARA OS DIAS ATUAIS




O novo filme de Cláudio Assis prova que o cinema nacional ainda está vivo, poético, ousado e corajoso. Depois do polêmico Amarelo Manga, o cineasta apresenta este filme que é uma joia rara. Esta obra é uma ode ao anarquismo em seu mais puro conceito. Um belo, forte e controverso filme.
Febre do rato é uma expressão típica do Recife que designa alguém que está fora de controle, que está ''danado''. Febre do Rato (2012), o novo filme de Claudio Assis, pode ser definido nesta expressão, o filme é um descontrole total da ordem vigente, o caos dos bons costumes dito pela a hipocrisia, a poesia dos puros de espirito que não foram contaminados pela a falta de originalidade e empatia, um filme que tem a mais bela e imaculada filosofia anárquica como um estilo de vida. A anarquia é liberdade, é o direito de errar usado na sua mais alta performance, é o pensamento em coletividade afim de se criar um mundo perfeito para todos, sem diferenças e com muito amor, é a mais pura e perfeita utopia, por isso ela é perigosa e por isso o seu conceito é deturpado.

Zizo (brilhantemente interpretado por Irandhir Santos) é o editor, curador, produtor, patrocinador e escritor do jornal político anarquista que ele chama de ''Febre do Rato''. Zizo é um poeta que é o porta voz dos que são marginalizados pela a sociedade e pelo governo, um rebelde inconformado com todo este sistema que nutre poucos e oprime a muitos, e com todo o conformismo dos injustiçados e subjugados que não se organizam e se rebelam, ele criou um mundo onde a sua religião é o seu sarcasmo perante o sistema, o mangue e as favelas são sua igreja e ele é o profeta do apocalipse. Assim Zizo tenta doutrinar seus amigos que para ele são os seus seguidores, para a ideologia anarquista através de poesias magistrais que eles dificilmente compreendem, assim o seu mundo se completa e seu ego é alimentado e equilibrado, até aparecer Eneida (Nanda Costa), que irá descontrolar completamente este seu mundo o levando a auto destruição.




Como nas obras do cinema marginal brasileiro, Febre do Rato é todo em preto e branco numa demonstração de descontentamento, desapontamento e desencantamento com a realidade. O filme trabalha o sexo como algo normal e não tem a convicção de que o corpo é um templo que deve ser imaculado, o corpo é algo que é para ser usado afim de atender nossas necessidades e a hipocrisia e o falso moralismo limitam nossas vontades de experimenta-lo e conhece-lo, e que devemos nos rebelar contra todas as doutrinas que nos ensinam o contrário, afinal, o experimentalismo é algo fundamental para nossa evolução.

O elenco secundário do filme é extraordinário, eles complementam o filme dando enfase nas peripécias e loucuras de Zizo, que busca obsessivamente um mundo perfeito, tentando ruir o sistema vigente para que ele possa ser reconstruído. Eles o vêem como um louco mas também como um intelectual que deve ser ouvido, mesmo que eles não a entendam, eles sabem que algo de bom e construtivo saem de suas poesias que são constantemente vituperadas por ele em bares e esquinas. O multitalentoso Matheus Nachtergaele faz paizinho, o melhor amigo de Zizo, ele vive um relacionamento conturbado com o travesti Vanessa interpretada por Tânia Granussi, o casal sustenta com competência o lado cômico e irreverente do filme em um relacionamento cheio de altos e baixos, traição e muito amor.

Este filme remete os tempos em que o cinema brasileiro era feito com intenções sociopolíticas com ideologias anarquistas afim de desmistificar a sociedade conservadora, o classicismo, a política opressora, o controle das massas através da mídia manipuladora e a hipocrisia generalizada. Este filme é um remanescente do cinema marginal, que foi o movimento cinematográfico mais importante da história do Brasil, um cinema poético, sombrio, politicamente incorreto, subversivo e genuinamente latino-americano que vai na contra mão do cinema institucionalizado e morto que permeia o mercado cinematográfico brasileiro e leva milhares de pessoas aos cinemas apenas porque não há outras opções. Febre do Rato é ''uma bicuda no ovo direito da ordem'', é um filme genial.



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About leandro godoy

Sou o criador, editor chefe e escritor do site Cinema e Fúria. Gosto dos mais malucos exploitations, aos cultuados filmes de arte até ao mainstream do cinemão pipoca. Meus outros interesses são: odontologia, literatura e música.
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