FOI DEUS QUEM MANDOU, 1976 (ANÁLISE) PROJETO GRINDHOUSE






Foi Deus Quem Mandou de 1974 é com certeza um dos filmes mais ousados do controverso diretor e roteirista Larry Cohen. Na década de 1970 a sociedade estadunidense vivia uma era de confrontos entre fundamentalistas religiosos cristãos e os resquícios da geração hippie que ainda sobrevivia de forma marginalizada em meio a uma onda de fanatismo cristão que formava dezenas de ceitas pelo país, transformando seus líderes em poderosas celebridades.

Se aproveitando deste contexto social, o cineasta e roteirista Larry Cohen resolveu conceber um filme corajoso em  que criticava de forma ácida a onda de fanatismo religioso deste período, os atos dissimulatórios de seus líderes e a hipocrisia cristã. O filme também faz um estudo de até onde o condicionamento espiritual equivocado levaria alguém quando este está cego por estar inserido num contexto subjetivo e escravocrata idealizado por fanáticos e ambiciosos oportunistas que se auto denominavam líderes espirituais. Estes líderes visavam na década de 1970 criar uma nova ordem social cristã que tomou forma depois dos crimes hediondos cometidos a mando de Charles Manson que chocou todos os Estados Unidos e que foi amplamente perpetuado pela a imprensa do mundo todo transformando o movimento hippie de ''paz, amor e liberdade'' advindos da revolução contracultural da década de 1960, como ceitas demoníacas matando perante a opinião pública um importante movimento cultural de toda uma geração.

Para realizar este filme, Larry Cohen se inspirou em Charles Whitman, o fanático religioso texano que em 1 de Agosto de 1966 subiu na torre principal da universidade do Texas e com seu rifle disparou contra diversas pessoas, deixando 14 mortos e 21 feridos. Na época, muitos especialistas em ciência forense e balística disseram que a precisão dos disparos feitos por Charles Whitman eram sobre humanos, desencadeando assim uma histeria religiosa propagada pela a imprensa sensacionalista que criou um mito de que ele foi guiado por uma entidade espiritual ou até, pasmem, guiado pelo próprio DEUS.

Então, Larry Cohen criou uma estória absurda e polêmica que logo no seu começo já presenciamos a referência a Charles Whitman, quando um homem em cima de uma torre atira contra várias pessoas matando dezenas. Quando ele é questionado pelo o detetive Peter J. Nicholas vivido pelo ator Tony Lo Bianco do porque dele estar cometendo este massacre, ele diz: ''Foi Deus quem mandou'' . Assim o filme faz uma crítica ao Deus punitivo e obsessivo dos católicos e dos protestantes mais fervorosos.



Então, vários assassinatos bizarros e sem sentido começam a acontecer por toda Nova York, sendo que todos os assassinos só tem uma explicação para seus atos violentos quando são questionados, eles dizem: ''Foi Deus quem mandou''. Entre os problemas pessoais envolvendo sua esposa e amante, o detetive católico Peter J. Nicholas começa a investigar estes crimes e cada vez que ele adentra nas entranhas deste mistério ele suspeita que todos eles estão relacionados com algum tipo de ceita religiosa. Ele descobre algo perturbador muito maior e fantástico do que ele poderia imaginar e suportar, algo bizarro sobre a origem desses assassinatos que envolve um suposto Jesus Cristo ou um profeta hippie alienígena alá Charles Manson. O filme não deixa nada claro e possui uma conclusão surreal que é um pouco atrapalhada mas consegue causar uma dúvida perturbadora que pode ser interpretada de várias maneiras.

Larry Cohen concebe uma narrativa propositalmente confusa, que possui características de vários gêneros, como: Ficção Científica, Horror, Thriller, Mistério e Fantasia. Somos impelidos a adentrar neste clima desnorteante e a cada nova cena somos surpreendidos pela a genialidade deste autor que é um dos mais originais e criativos da cultura underground estadunidense da década de 1970. Esta obra cult é uma das grandes preciosidades do lado B do cinema concebida para se rebelar contra o establishment religioso propagado por oportunistas gananciosos que se aproveitam da fé das pessoas que se entregam a suas vontades por estarem perdidas em meio a várias perguntas dentro de um mundo amedrontador, uma crítica que infelizmente perdura até os dias atuais.

Muitos anos após o lançamento do filme o cineasta e roteirista Larry Cohen foi procurado pelo polêmico cineasta francês Gaspar Noé que tinha o interesse em refilmar Foi Deus quem Mandou, mas por alguns percalços o projeto nunca foi realizado. Este filme causou furor quando foi lançado nos cinemas na década de 1970 e foi censurado em vários locais, mas ele foi muito bem recebido nos cinemas grindhouses estadunidenses se transformando num cult instantâneo da cultura underground deste período sendo reconhecido como um clássico marginalizado. Infelizmente hoje em dia este filme é muito pouco divulgado. Na minha opinião, ele merecia mais atenção por ser um filme que conversa diretamente com os nossos dias atuais.


NOME ORIGINAL: God Told Me To

DIREÇÃO: Larry Cohen

ANO: 1974

TRAILER ORIGINAL DE CINEMA


            
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About leandro godoy

Sou o criador, editor chefe e escritor do site Cinema e Fúria. Gosto dos mais malucos exploitations, aos cultuados filmes de arte até ao mainstream do cinemão pipoca. Meus outros interesses são: odontologia, literatura e música.
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