EM PEDAÇOS (2017): UM FILME ESSENCIAL PARA OS TEMPOS ATUAIS





Qual seria a nossa reação se perdêssemos de forma cruel pessoas que amamos? Neste filme isso é explorado de uma forma visceral pelo cineasta Fatih Akin que juntamente com o co-roteirista Hark Bohm, cria uma narrativa onde o luto e o desejo de justiça se antevem a um sistema judicial falho e também ao medo da sociedade pelos grupos radicais, que com ideologias baseadas no ódio e na discriminação, promovem atos monstruosos como o terrorismo.

O filme toca de forma crua na ferida do radicalismo ideológico que é algo atraente em tempos de crises, principalmente nesses tempos sombrios e transitórios em que o mundo está passando. A Alemanha é um país que sabe muito bem as consequências que ideologias assim podem causar em sua estrutura social e política. Mas, por causa dessas cicatrizes, esses assuntos são vistos como tabus e até como algo vergonhoso pelos poderes que formam as bases políticas daquele país que vive hoje num estado democrático de direito, mesmo depois de vários anos sob o domínio de governos totalitários. Aqui no filme isso é escancarado.

Katia Sekerci (Diane Kruger) vive uma vida normal e pacata ao lado de seu marido e filho. Até que um dia ela é surpreendida pela notícia que ambos foram mortos num ataque terrorista, realizado no bairro turco que seu marido de nacionalidade turca trabalhava. As autoridades alemãs descobrem que os suspeitos pelo o ataque terrorista é o casal formado por André (Ulrich Brandhoff) e Edda Möller (Hanna Hilsdorf) que são pessoas ligadas a um grupo neonazista.


Quando se descobre os suspeitos desse ataque pérfido, Katia Sekerci que está em meio a um desesperador processo de luto, decide se apoiar no aparato do estado para que a justiça seja feita. É aqui que vivenciamos toda a burocracia do sistema judiciário alemão que não está preparado para combater esse tipo de crime. A causa e efeito do terrorismo cometido por nacionalistas nazistas amedrontam a sociedade e deixam o estado de mãos atadas, que infelizmente ainda não sabe lidar com a série de fatores que tem de ser vistos e revistos, investigados e abordados de forma sistêmica. Os argumentos em favor dos terroristas possuem mais qualidades a serem consideradas do que os argumentos contra, e isso é revoltante.

A atriz Diane Kruger entrega uma interpretação brilhante, sua atuação é cheia de sutilezas que despertam os horrores que vive uma pessoa em profunda depressão ocasionada pelo o luto. A atriz venceu o prêmio de melhor atriz em Cannes por esse filme no ano de 2017. É simplesmente devastador quando a vemos em seu íntimo, que é um verdadeiro pesadelo. A sede de vingança é algo em que ela se apoia para saciar seu desespero e isso só aumenta seu tormento, que vira obsessão quando de forma esdrúxula a justiça não é feita como ela desejava.

Este com certeza é um dos filmes mais políticos do cineasta Fatih Akin, um diretor que gosto bastante e que dirigiu obras-primas como: Contra a Parede (2004) e Do Outro Lado (2007). Este filme é algo a ser considerado nos turbulentos tempos que vivem alguns países da Europa nos dias de hoje, onde partidos nacionalistas como o partido nazista está tendo mais e mais adeptos. O discurso de ódio traz soluções fáceis e a cegueira ideológica pode ser algo extremamente perigoso numa sociedade onde há bastante grupos étnicos, o discurso de ódio ataca os mais fracos pertencentes a minorias, que para eles, sempre serão os bodes expiatórios dos problemas que vive o país. Neste filme isso é escancarado quando uma família é destruída de forma covarde e a justiça não é feita em relação a isso.



           
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About leandro godoy

Sou o criador, editor chefe e escritor do site Cinema e Fúria. Gosto dos mais malucos exploitations, aos cultuados filmes de arte até ao mainstream do cinemão pipoca. Meus outros interesses são: odontologia, literatura e música.
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