BlacKkKlansman (2018) - CRÍTICA





O filme é uma jornada ao coração dos tempos sombrios que vive os Estados Unidos da era Trump, uma obra necessária com um senso de urgência afiado e irônico. O filme é provocador do começo ao fim e racha o espelho da intolerância expondo somente um pedaço daquilo que pode transformar uma sociedade relativamente civilizada em barbárie.

O novo filme do aclamado cineasta Spike Lee, que também é um conhecido ativista das causas sociais de defesa dos direitos e da cultura dos afrodescendentes, é uma obra necessária com um senso de urgência irônico sobre as questões raciais que enfrenta os Estados Unidos nesta era Trump de medo e intolerância. As questões abordadas neste filme remete a uma modernização dos conceitos empregados pelos cultuados filmes do gênero Blaxpoittation, que foi um movimento cinematográfico da década de 1970 de empoderamento racial e cultural dos afrodescendentes, e também de denuncia contra as injustiças sociais cometidas contra eles numa época de luta pelos direitos civis paralelamente a revolução contra-cultural que balançou as estruturas sociais dos Estados Unidos. O filme traz várias referências e menções aos filmes deste movimento cinematográfico. A trilha sonora do filme está impecável com canções dos gêneros musicais que refletem a cultura afrodescendente nos Estados Unidos, como: Soul, Jazz e o Rhythm and blues.

Este filme é baseado numa história real mas como em todos filmes nesse sentido ele toma diversas liberdades modificando alguns eventos. A estória se passa no ano de 1978 no estado do Colorado e acompanha o policial negro Ron Stallworth (John David Washington) que conseguiu se infiltrar de forma nada convencional na Ku Klux Klan local. Um feito nada comum já que essa organização nacionalista é conhecida por enfatizar a supremacia branca através da xenofobia, anti-semitismo e principalmente através do racismo.

Neste período da história dos Estados Unidos a Ku KLux Kan mantinha suas condutas originais sendo uma organização secreta que agia nas sombras organizando atos de repúdio e violência contra os grupos raciais que eles consideravam perniciosos. A organização defendia com afinco que ''o país estava em processo de deterioração dos valores morais, éticos e religiosos por culpa das raças inferiores''. Essa organização foi ficando cada mais politizada e se aproveitando da histeria coletiva deste período barulhento e conturbado ela aos poucos foi saindo do anonimato e com sua ideologia de ''supremacia branca'', foi angariando milhares de novos e fervorosos adeptos e até garantindo seu lugar dentro das instituições políticas democratas. Assim a Ku Klux Kan se tornou muito popular nos Estados Unidos neste período com suas ideologias de segregação e pureza racial, ganhando força entre a sociedade e se transformando numa verdadeira ceita, onde o seu líder mais popular, o nacionalista David Duke (no filme interpretado por Topher Grace), era considerado um verdadeiro profeta da causa. David Duke futuramente se elegeria como político pelo estado da Luisiana.

Aqui, o cineasta Spike Lee que também escreve o roteiro tem a plena consciência do que está fazendo e aonde quer chegar mas se perde em alguns momentos de ansiedade em querer fazer um reflexo do momento atual, algumas cenas cruciais são rápidas e possuem conclusões precipitadas e bastante  parciais e até desleixadas, algo que ao meu ver arranha a natureza primordial do seu filme que nesse sentido é muito bem representado pelos discursos políticos subjetivos e afiados que desconcerta e trás reflexões pertinentes. O elenco principal do filme é muito bem representado pelos atores Adam Driver e John David Washington que são dois dos melhores atores estadunidenses desta nova geração. O sincretismo entre os dois é muito bem elaborado mas como disse, também sofre com a impaciência do cineasta Spike Lee que constrói essa relação de forma muito rápida, atrapalhando um pouco a interessante dinâmica entre os personagens.

Com certeza esse filme é uma crítica ácida ao senso comum do discurso populista de intolerância e ódio que incendeia frágeis sociedades democráticas pelo o mundo afora que já possuem no seu cerne a cultura da segregação racial, com isso frustando o progresso sociopolítico e geopolítico essenciais para o desenvolvimento destas nações. O filme faz um alerta tardio, mas não menos importante e conscientizador, sobre o perigo desses movimentos nacionalistas intolerantes para a estrutura social de um país e de como seus líderes, que são vistos como ''loucos'', podem ser bastante populares e até se tornarem importantes políticos através do processo democrático, levando ao chão qualquer argumento de racionalidade e civilidade. Os Estados Unidos está vivenciando isso com o nefasto governo do Donald Trump. O Brasil poderá seguir o mesmo caminho, com o infame presidente eleito Jair Bolsonaro.


TRAILER:


            
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About leandro godoy

Sou o criador, editor chefe e escritor do site Cinema e Fúria. Gosto dos mais malucos exploitations, aos cultuados filmes de arte até ao mainstream do cinemão pipoca. Meus outros interesses são: odontologia, literatura e música.
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